O avanço dos afastamentos por transtornos mentais em Mato Grosso do Sul deixou de ser um dado isolado para se tornar um sinal claro de alerta. Em meio ao Abril Verde — mês dedicado à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho — os números revelam uma mudança no perfil do adoecimento laboral: cada vez mais, são questões psicológicas que tiram trabalhadores de suas funções.
No estado, o crescimento é expressivo. Em 2024, foram registrados cerca de 9 mil afastamentos por transtornos mentais. No ano passado, o número ultrapassou 15 mil — alta próxima de 70% em apenas dois anos. Na prática, isso significa que, em média, um trabalhador sul-mato-grossense é afastado por problemas psicológicos a cada 54 minutos.
O cenário acompanha tendência nacional. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil licenças por transtornos mentais, o maior volume da série histórica. Ansiedade e depressão lideram os diagnósticos, consolidando o impacto da saúde mental como uma das principais causas de afastamento do trabalho.
Por trás das estatísticas, estão histórias que evidenciam o desgaste emocional. Um trabalhador do setor de serviços, de 32 anos, relata que precisou interromper a rotina após desenvolver crises de ansiedade. A rotina marcada por metas e cobranças constantes acabou afetando o sono e a saúde.
“Chegou um ponto em que meu corpo não respondeu mais”, conta. Segundo ele, o afastamento também expôs a ausência de suporte dentro do ambiente profissional.
A psicóloga Giovana Guzzo Freire avalia que o aumento dos afastamentos reflete a forma como o trabalho tem sido estruturado. Metas elevadas, pressão contínua e a lógica de comparação permanente criam ambiente de tensão que favorece o adoecimento. Nesse contexto, o acompanhamento psicológico passa a ser essencial não apenas para tratar, mas para reorganizar a relação do trabalhador com a rotina profissional.
Outro fator que contribui para o agravamento do cenário é o despreparo das empresas. Mesmo com evidências de que investir em saúde mental reduz afastamentos, muitas organizações ainda não possuem políticas estruturadas para lidar com o problema. A falta de ações preventivas e de apoio interno faz com que os casos se repitam e, em muitos casos, se agravem.
A psicóloga Aletânia, que atua na área de saúde do trabalhador, reforça que a saúde mental precisa ser tratada como risco ocupacional. Ambientes com alta cobrança, metas agressivas e pouca rede de apoio tendem a intensificar o desgaste emocional. Sem mudanças práticas, a tendência é de continuidade no crescimento dos afastamentos.
Mês de conscientização
O tema ganha ainda mais relevância durante o Abril Verde, tradicionalmente voltado à prevenção de acidentes de trabalho. Nos últimos anos, a campanha tem ampliado o debate para incluir também o cuidado com a saúde mental, reconhecendo que o bem-estar psicológico é parte essencial da segurança no ambiente profissional.
Além do impacto humano, o problema também tem reflexos econômicos. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho indicam que transtornos mentais geram perdas de cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade no mundo. O dado reforça que a questão ultrapassa o campo da saúde e afeta diretamente a dinâmica econômica.
Diante desse cenário, especialistas apontam que o desafio está em transformar a conscientização em prática. A criação de ambientes de trabalho mais saudáveis, com políticas efetivas de prevenção e suporte psicológico, aparece como um dos principais caminhos para conter o avanço de uma crise que já não pode mais ser ignorada.