Um mês depois, morte de jornalista cai no esquecimento da polícia paraguaia

Hoje faz um mês que pistoleiros mataram Leo Veras em Pedro Juan Caballero; viúva sequer foi chamada para prestar depoimento

Foto: Divulgação

Nesta quinta-feira (12) faz um mês que três bandidos encapuzados invadiram uma casa simples no bairro Jardim Aurora, em Pedro Juan Caballero, e mataram com 15 tiros de pistola 9 milímetros o jornalista brasileiro Lourenço Veras, o Leo, 54 anos de idade. Editor e único repórter do site de notícias Porã News, Leo jantava com a mulher, os filhos adolescentes e o sogro. Ele tentou correr ao ver os bandidos chegando, mas foi perseguido e morto no quintal.

Apesar de muitas teorias e suspeitas que surgiram nesses 30 dias, até agora a Polícia Nacional do Paraguai não esclareceu a execução de Leo Veras. Nem mesmo a força-tarefa do Ministério Público paraguaio, formada por cinco promotores de Asunción, conseguiu fazer as investigações avançarem. A reportagem apurou que a viúva do jornalista nem foi chamada ainda para prestar depoimento.

Jornalistas amigos de Leo Veras que atuam na Linha Internacional afirmam que nos meios policiais o assassinato já caiu no esquecimento, assim como as centenas de execuções ocorridas nos dois lados da fronteira nos últimos anos.

“Aqui é assim. Não importa a repercussão que uma execução tenha, logo cai no esquecimento e vira apenas estatística. No Paraguai um escândalo esconde o outro. Agora é o Ronaldinho [ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, preso no Paraguai por uso de passaporte falso]. Não se fala em outra coisa, se esquece todo o resto”, afirmou ao Campo Grande News um repórter da fronteira, amigo de Leo Veras.

No dia 22 de fevereiro, a polícia paraguaia prendeu nove pessoas em Pedro Juan Caballero e apreendeu um Jeep Renegade branco, supostamente o carro usado pelos pistoleiros que mataram Leo Veras.

Oficiais paraguaios correram para divulgar que todos estariam envolvidos na morte do jornalista. O comissário Gilberto Fleitas, chefe do departamento contra o crime organizado da Polícia Nacional, afirmou serem grandes os indícios de envolvimento da facção criminosa brasileira PCC (Primeiro Comando da Capital) na execução. Segundo ele, a morte de Leo Veras teria sido terceirizada por chefes locais do PCC “que se passam por poderosos empresários”.

Fleitas reafirmou que os supostos mandantes da execução são integrantes da estrutura criminosa liderada por Sergio de Arruda Quintiliano Neto, o Minotauro, Ederson Salinas Benítez, o Ryguasu, e Marcio Sanchez, o “Aguacate”. Salinas estava preso até ontem na PED (Penitenciária Estadual de Dourados) por porte ilegal de arma, mas o Tribunal de Justiça lhe concedeu habeas corpus mediante fiança de R$ 80 mil, paga ontem mesmo.

Minotauro está preso no Brasil desde que foi localizado em Balneário Camboriú (SC). Aguacate é considerado o chefe dos matadores de aluguel que atuam na fronteira.

O comissário paraguaio disse que a ordem para execução de Leo Veras teria sido cumprida por Waldemar Pereira Rivas, o “Cachorrão”. Cintia Raquel Pereira Leite, irmã de Cachorrão, foi uma das pessoas presas no dia 22 de fevereiro. No mesmo dia, Cachorrão, fugitivo por outros crimes, deu entrevista a uma rádio de Pedro Juan e negou o crime. Afirmou que era amigo de Leo Veras.

Os nove presos por suspeita do assassinato continuam atrás das grades, mas até agora a polícia não divulgou as supostas provas que existem contra eles.

Enquanto o assassinato de Leo Veras é deixado de lado pelas autoridades, a família do jornalista enfrenta dificuldades financeiras. Na terça-feira (10), uma “vaquinha” online foi lançada para arrecadar dinheiro para a família. Os interessados podem fazer doações via boleto bancário ou por meio de cartão de crédito. A campanha foi criada pelo perfil do site Porã News, que pertencia ao jornalista, mas toda a quantia arrecadada será revertida integralmente à família de Leo Veras.

(Helio de Freitas)