O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ednaldo Rodrigues, autorizou um aumento significativo na remuneração dos presidentes das federações estaduais. O valor mensal destinado aos dirigentes passou de R$ 50 mil para R$ 215 mil — um reajuste de 330%. A medida foi tomada sem ampla divulgação, mas consta em registros oficiais da entidade.
A verba, classificada como “ajuda de custo”, é paga mensalmente pela CBF aos presidentes das 27 federações estaduais. O pagamento não exige prestação de contas detalhada nem está vinculado a metas de desempenho. Com a mudança, cada dirigente passará a receber, ao longo de um ano, R$ 2,58 milhões, totalizando quase R$ 70 milhões anuais destinados a essas remunerações, caso todos os presidentes recebam o montante integral.
Entre os beneficiários está Estevão Petrallás, presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS), cuja gestão à frente do futebol estadual é alvo constante de críticas. Mesmo com o repasse milionário, o futebol sul-mato-grossense vive um dos períodos mais apagados de sua história, sem clubes com presença expressiva em competições nacionais, estádios esvaziados e campeonatos locais com pouca visibilidade.
A federação presidida por Petrallás, que ocupa o cargo desde 2013, é constantemente apontada como ausente nas iniciativas de reestruturação dos clubes e do calendário local. Enquanto a ajuda de custo da CBF alcança cifras milionárias, a realidade do futebol do estado é marcada por baixos investimentos, dificuldades estruturais e falta de políticas efetivas de desenvolvimento de base.
A última vez que um clube do Mato Grosso do Sul disputou a Série B do Campeonato Brasileiro foi há mais de 30 anos. Hoje, as equipes locais enfrentam dificuldades até mesmo para manter elencos durante o ano inteiro, já que a maioria dos contratos é encerrada após o fim do Estadual. As categorias de base são negligenciadas e as parcerias com o setor público ou privado são escassas. Em alguns casos, os próprios clubes precisam custear arbitragem e logística com recursos próprios, dada a ausência de apoio efetivo da federação.
A decisão de Ednaldo Rodrigues de quadruplicar os repasses a federações estaduais reacende o debate sobre a governança da CBF. As federações controlam a maior parte do colégio eleitoral — são 81 dos 141 votos — e, mesmo sem retorno técnico e estrutural aos seus estados, seguem exercendo influência direta na escolha da cúpula da entidade.
Nos bastidores, a medida é interpretada como uma forma de fortalecer o apoio político de Ednaldo, reconduzido à presidência da CBF após um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), encerrando a disputa judicial iniciada com a anulação de sua eleição em dezembro de 2023.
Procurada, a CBF ainda não se manifestou oficialmente sobre os critérios e justificativas do aumento.
Enquanto os salários dos dirigentes aumentam, o futebol de Mato Grosso do Sul segue à margem do cenário nacional, sem perspectiva de crescimento e com seus clubes à deriva.